Revista Veredas - Edição 6
EDITORIAL
Quando,
em 1502, Gil Vicente (1465?-1536?) apresenta o Auto da Visitação
perante a Rainha D. Maria (1482-1517), esposa do Rei D. Manuel I (1469-1521),
Portugal constituía provavelmente a principal potência européia.
Embora a América estivesse subordinada a Fernando de Aragão (1452-1516)
e Isabel de Castela (1451-1504), os soberanos católicos da Espanha, Portugal
conquistara a mais ambicionada rota comercial do período, que o conduzia
às Índias e, por extensão, às riquezas da Ásia.
E, sem ter ido à guerra, garantira considerável área de
terra no recentemente descoberto Novo Mundo, região que viria a garantir
seu sustento econômico quando, após a Restauração
joanina, em 1640, o poder do Estado lusitano não seria mais o mesmo.
A
pujança portuguesa estendeu-se por algumas décadas durante o século
XVI, esgotando-se por efeito da derrota dos comandados de D. Sebastião
(1554-1578), em Alcácer Quibir, em 1578, poucos anos depois de Luís
de Camões (1524(?)-1580) publicar Os Lusíadas, celebração
em versos da audácia lusitana, que, conquistando os mares, alargara notavelmente
as possessões territoriais do país. De D. Manuel I a D. Sebastião,
Portugal experimentou o caminho que leva do sucesso político ao fracasso
militar; mas a poesia e a literatura, de Gil Vicente a Camões, nunca
deixaram de se expandir e de se engrandecer.
Circunstâncias
notórias da vida palaciana sugerem que a autonomia do Estado português,
ainda que enraizada na conquista territorial, era precária: em 1496,
os Reis Católicos levaram D. Manuel a se comprometer com a expulsão
dos judeus que viviam em Portugal, muitos deles originários da Espanha,
de onde tinham sido banidos em 1492. Era essa a condição para
que admitissem o casamento da filha, D. Isabel (1470-1500), com o monarca português.
O rei procrastina a execução desse ato radical, que arruinaria
as finanças do país, optando por uma solução paliativa:
a conversão deles, aceitando que permanecessem na condição
híbrida e temporária de “cristãos-novos”, até
se adaptarem definitivamente à religião católica. Ao mesmo
tempo, proibiu que abandonassem o país; muitos, contudo, deixaram Portugal,
antes ou depois de batizados, deslocando-se na direção da Holanda
ou da Itália; outros ainda permaneceram e acabaram vítimas do
massacre de 1506. Com a instalação do Tribunal do Santo Ofício,
em 1531, a pedido de D. João III (1502-1557), a situação
dos judeus conversos tornou-se insustentável, e o êxodo foi quase
total e definitivo.
O
país sofreu irrecuperáveis perdas, não apenas no âmbito
da economia, mas igualmente no plano literário e científico, pois
os intelectuais e artistas judeus estavam integrados à vida cultural
e universitária portuguesa. Entre Gil Vicente e Camões, vigorou
igualmente uma pujante produção oriunda de criadores e filósofos
que, obrigados a emigrar, promoveram notável cultura portuguesa no exílio,
não menos importante que a que encontrava suas expressões na corte
lisboeta.
O
arco de tempo que se estende de Gil Vicente a Luís de Camões engloba,
assim, não apenas uma variedade de autores e de possibilidades de manifestações
literárias, mas também questões e problemas com que os
Estudos Literários se interrogam. Luís de Camões, principal
expoente do período, foi um artista alinhado com as principais tendências
do Renascimento e conhecedor profundo da poesia e da poética clássica.
Mas, ao mesmo tempo, foi um homem do mundo, tendo escrito sua epopéia
fora de Portugal, experimentando exílio paralelo ao de seus conterrâneos
judeus.
Estes
aspectos, aproximados em conseqüência do exame dos autores e das
condições de produção do século XVI, propiciam
singular conjunto de reflexões, como as procedidas pelo grupo de pesquisadores
reunidos nesse número de Veredas, periódico da Associação
Internacional de Lusitanistas. Primeiramente, porque reúne seis dos maiores
conhecedores das questões propostas, pertencentes a diferentes gerações
de estudiosos das literaturas em língua portuguesa: António Manuel
Lopes Andrade, Carlos Ascenso André, Cleonice Berardinelli, Helder Macedo,
Maurício Matos e Vanda Anastácio são indiscutivelmente
conhecedores prestigiados do tema sobre o qual se debruçam. Depois, porque
as abordagens buscam introduzir perspectivas novas sobre autores clássicos
do porte de Bernardim Ribeiro (1480s-15??) e Luís de Camões. Avulta,
assim, uma visão renovadora sobre a literatura em língua portuguesa
do século XVI, que, se teve seu epicentro em Portugal, não se
limitou aos acontecimentos transcorridos dentro das fronteiras geográficas
dessa nação.
Com
a publicação desses ensaios, Veredas inaugura nova fase de seu
modo de produção. Cada volume estará voltado à exploração
de um tema nuclear, em torno do qual se apresentam os estudos individuais. Contará,
pois, com um organizador, convidado pela Direção de Veredas e
responsável pela concretização do trabalho, com total liberdade
de ação. A organização deste volume 6, de Veredas,
contou com o apoio de Helder Macedo, cuja generosidade e sabedoria permitiram
que se viabilizasse a publicação de um conjunto tão qualificado
de ensaios. A ele, e aos demais colaboradores, que prontamente atenderam o convite,
a Diretoria da Associação Internacional de Lusitanistas e os Editores
de Veredas agradecem.
A Direção da Revista
APRESENTAÇÃO
CLEONICE
BERARDINELLI
Gil Vicente: releituras de um texto semi-milenar
HELDER MACEDO
Luís de Camões: o testemunho das cartas
CARLOS ASCENSO ANDRÉ
Ao contrário de Virgílio: reflexões sobre o feminino n’Os
Lusíadas
VANDA ANASTÁCIO
Entre pastores e pastoras: disfarce e enigma na poesia bucólica do Século
XVI
ANTÓNIO MANUEL LOPES
ANDRADE
Os Senhores do Desterro de Portugal: judeus portugueses em Veneza e Ferrara
em meados do séc. XVI
MAURICIO MATOS
Cancioneirito de Ferrara (1554): edição, estudo preliminar e notas