Voltar

Revista Veredas - Edição 7

 

EDITORIAL

        Os estudos das produções literárias à margem do sistema hegemônico têm sido matizados pelo conceito de diferença. Situam-se, na ótica de uma crítica mais tradicionalista, não apenas como literaturas diferentes, mas com fronteiras rígidas. Se essa qualificação pode ser eventualmente interessante, quando se tem em vista respeitar a alteridade, por outro, ela pode ser problemática, implicando encerrar tais literaturas em delimitações fechadas, isolando-as do contexto mais geral, com o qual efetivamente elas se imbricam. Por outro lado, as diferenças, para quem se posiciona nos centros de poder simbólico, são sempre atribuídas à periferia do sistema. Diferentes são as outras literaturas, nunca as centrais. É uma inclinação do pensamento, análoga à rotulação do étnico. Étnicos, isto é, negros, hispânicos, etc, são os outros, nunca os próprios. Os próprios são portadores dos padrões etnocêntricos de excelência, reunindo as purezas de Ariel: os outros são mestiços afins de um Caliban, para nos valer de uma das muitas leituras dessas personagens de Shakespeare.
        Em confluência com essas formas de catalogação está a tendência à guetização da diferença. Democracia, neste caso, procura ser rimada com exclusão, o que é uma impossibilidade, como alguns dos ensaios deste número de Veredas permitem inferir. São aqui focalizadas criticamente as literaturas africanas de língua oficial portuguesa. Literaturas híbridas, de múltiplas fronteiras como pode ser observado. Literaturas compósitas, em que se mesclam várias tradições, a partir do solo e do pensamento de cada uma das nações africanas. Ao contrário dos essencialismos étnicos, que podem levar à guetização, são literaturas que se mostram com fronteiras de múltiplas articulações. Além das fronteiras internas, onde interagem múltiplas culturas, há as externas que se manifestam em cadaa país. Revelem-se, nesse sentido, nas fronteiras africanas, aquelas que apontam para os países africanos de mesma comunidade lingüística. E comunitário se alarga para o Brasil e Portugal, por onde circulam cada vez mais as produções africanas.
        Embora as literaturas africanas em língua portuguesa estejam estreitamente ligadas à consolidação do Estado-Nação — em seu estatuto independente é fato históricamente recente —, elas não se limitam à construção passados míticos. Isto é, ao procurarem o que neles é singular, suas diferenças, distanciam-se da construção de identidades circunscritas ao mítico. Melhor, por serem híbridas, fazem da mescla cultural que veio da experiência histórica um fator de produtividade artística e de inserção supranacional. E da mesma forma que os africanos podem descortinar, nas literaturas do Brasil e de Portugal, facetas do comunitarismo cultural que os envolvem, também brasileiros e portugueses têm evidenciados, nessas literaturas, traços que os identificam com os africanos. Há uma experiência histórica comum que envolve essa comunidade lingüístico-cultural, que o texto literário nela produzido pode revelar, além — é evidente — dos valores mais gerais que são próprios da literatura.

A Direção da Revista

APRESENTAÇÃO

ÁFRICA


ANA MARGARIDA FONSECA
Desafios da mestiçagem: o realismo mágico em questão

JOSÉ PIRES LARANJEIRA
Mulheres que escrevem: Noémia, Alda, Conceição, Chiziane

MARIA MANUELA JALES C. DE ARAÚJO

Francisco José Tenreiro e Noémia de Sousa: um diálogo com as vozes negro-americanas de Harlem


MARIA NAZARETH SOARES FONSECA

Coreografias da escrita literária: diálogos e modulações

PETAR PETROV

Intertextualidade e criação literária: Guimarães Rosa, Luandino Vieira e Mia Couto


ANGOLA

CARMEN LUCIA TINDÓ RIBEIRO SECCO

A poesia angolana pós-independência: tendências e impasses

ELIZABETH R. Z. BROSE

A Gloriosa Família: transtextualidade e tradução

LAURA CAVALCANTE PADILHA

O movimento programático do anticolonial no âmbito da literatura angolana


CABO VERDE

BENILDE JUSTO CANIATO

Cabo Verde: a fome em sua literatura

BENJAMIN ABDALA JUNIOR

Globalização, cultura e identidade em Orlanda Amarílis

JANE TUTIKIAN

Germano Almeida, tradutor de uma nova realidade


MOÇAMBIQUE

J. D. COSME

Moçambicanidade vs. africanidade: a construção de nacionalidades literárias nos mundos anglófono e lusófono

MARIA APARECIDA SANTILLI

Maravilhas do conto fantástico de Mia Couto

MARIA LUÍZA RITZEL REMÉDIOS

O eu possível na dança do amor: Niketche, uma história de poligamia

RITA CHAVES E TÂNIA MACEDO

Entrevista com Mia Couto


SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE

INOCÊNCIA MATA

A poesia de Conceição Lima: o sentido da história das ruminações afetivas

RUSSEL G. HAMILTON

A dolorosa raiz do micondó: a voz poética intimista, são-tomense, pan-africanista e globalista de Conceição Lima